domingo, 24 de março de 2013

O livro e a leitura.

Se você procura uma companhia para todas as horas, que sempre tem as mais lindas palavras para te oferecer, este acompanhante fiel é o livro. A tecnologia está mudando o hábito da leitura e muitas pessoas não tem mais tempo para o prazer de folhear as páginas de um bom livro. Quando não estou em casa sempre carrego o meu exemplar para matar o tempo durante minhas viagens. É indescritível o prazer que se tem ao se ler um bom enredo, descobrem-se grandes personalidades em biografias, e grandes histórias na própria história escondida nos depoimentos de pessoas e de testemunhas de determinado fato.

Ao se ler um livro abrem-se portas e janelas de um mundo novo, sempre tenho um à minha cabeceira, e os meus preferidos são as biografias e os fatos históricos narrados por testemunhas. No livro está aquele lugar que você nunca foi e talvez nunca vá, estão as pessoas que você nunca encontrou e provavelmente nunca encontrará, pois muitas delas já não existem mais, mas através deles, quer sejam em brochura ou capa dura você descobre lugares e personalidades que imaginava completamente diferentes.

O aprendizado acontece em cada palavra, em cada frase ou encadeamento de ideias, ou seja, aprende-se muito lendo, é preciso, portanto, que nossos jovens deem enorme valor ao conhecimento das palavras para que as entendam e façam bom uso delas. Já não se cultua mais uma boa leitura e muita gente não dá valor ao conhecimento desta ciência que é o encadeamento de palavras e frases. Segundo estatísticas a quantidade de livros lida per-capita vem caindo em nosso país, o brasileiro lê pouco.

Entre 2007 e 2011 o hábito de leitura caiu 9,1% no Brasil, a leitura perdeu espaço para a TV, filmes em DVD, e a internet para diversão. Este é um dado crítico, pois neste mesmo período a população brasileira aumentou 2,9%. Segundo estas estatísticas os homens e mulheres dividem igualmente o prazer pela leitura no Brasil, e menos da metade da população tem o hábito de ler. As regiões que leem acima da média nacional são o Nordeste e o Centro-Oeste, estando o Sudeste dentro da média e as regiões Norte e Sul abaixo da média.

O costume da leitura deve ser iniciado desde a mais tenra idade, já na pré-escola, e cultuado ao longo de toda uma vida. Muitos pais procuram oferecer aos seus filhos esta oportunidade quando a iniciativa não parte da própria escola. A prática contínua da leitura produz pessoas mais esclarecidas que escrevem bem e possuem um extenso vocabulário para transmitir suas ideias.

Em resumo, um bom profissional ou uma pessoa que possui boa argumentação é sempre um devorador de livros. A compreensão do que se lê para o aprendizado passa pelo conhecimento do significado das palavras e da perfeita interação entre elas. Algumas escolas já possuem a prática de solicitar a professores e alunos que leiam pelo menos um livro por semana. Isto é muito salutar, pois o processo de ensino e aprendizagem passa, sem sombra de dúvida, pelo conhecimento do significado do que se lê e pela forma ortográfica correta.

É preciso que todas as instituições que oferecem ensino pré-escolar cultuem a prática de leitura para que nossas crianças evoluam na educação, pois as primeiras letras são de fundamental importância na formação do cidadão. É incrível, mas os livros de estória que nossos filhos levam para casa na alfabetização pré-escolar fazem toda a diferença na aquisição do prazer pela descoberta de novas palavras, frases e na compreensão das ideias, desde o primeiro e segundo graus até o ensino profissionalizante e a universidade.

Publicado na Coluna Ponto de Vista
Jornal Correio de Uberlândia
Data: 23/03/2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

Transporte urbano.


Um transporte urbano de primeiro mundo para Uberlândia é utopia e coisa de gente sonhadora como eu? Isto parece estar se confirmando como uma verdade, a prefeitura parece estar consolidando o sistema BRT (Bus Rapid Transit) em nossa cidade com o anúncio do aumento do tamanho dos ônibus articulados a circular por nossas avenidas. Os ônibus agora, em vez de 11 metros passarão a ter 13 metros de comprimento, mas o motor diesel continuará a roncar pela cidade e a cuspir poluição em nossos ares.

Quando se começará a desenvolver um projeto de transporte silencioso e limpo? Este é um projeto que demanda muitos recursos? Sim, sem dúvida demanda muitos recursos e não deve ser feito por uma única administração municipal. Mas que administração terá esta visão de futuro e começará a implantar as primeiras linhas de um metrô leve de superfície? É otimista afirmar que algum grupo de estudo esteja fazendo um ambicioso anteprojeto de transporte para em audiência pública apresentar à comunidade local?

Em todas as comparações feitas para os diferentes meios de transporte urbano entra o metrô, mas não se fala no transporte urbano eletrificado. Mesmo que seja o BRT ligado à eletricidade, os famosos trólebus, que ainda são utilizados em algumas linhas na cidade de São Paulo. Estes veículos são muito mais silenciosos e não despejam poluição nos ares. São mais caros, sim sem dúvida, mas enquanto a vida útil de trólebus é de 20 a 30 anos, a de um ônibus diesel comum é de 5 a 10 anos, dependendo muito das condições de trabalho a que são submetidos.

Taipei em Taiwan, Kunming na China, Teerã no Irã e Quito no Equador, usam o trólebus como meio de transporte. Uma primeira etapa para a adoção do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) com pouca ou nenhuma segregação com a malha viária da cidade. É bom lembrar que existe a solução de transporte eletrificado sobre pneus, o metrô de Santiago do Chile roda com esta solução. É verdade que o BRT pode utilizar combustíveis ambientalmente corretos como o biodiesel, por exemplo, mas os motores continuarão a ser de combustão e, portanto muito barulhentos para utilização em cidades que valorizam cada vez mais a redução de ruído, sem mencionar o fato que a eletricidade é o meio de transporte de energia mais limpo que se conhece.

Deve-se evitar o que os urbanistas como Jaime Lerner chamam de “gangrena urbana”, são as áreas isoladas de difícil acesso que transformam seus moradores em cidadãos de segunda classe. Nestas condições o acesso aos serviços citadinos fica difícil e demorado, estes moradores dispendem horas em idas e vindas de casa para o trabalho e vice-versa. Perde-se a convivência com a família e toda a qualidade de vida. Para que uma cidade funcione bem, o serviço de transporte urbano eficiente e de qualidade faz parte dos serviços públicos oferecidos por uma cidade aos seus munícipes.

É hora de começar a planejar o sistema viário da cidade para comportar nos novos viadutos, trincheiras e outras obras de arte, em conjunto com um sistema de transporte de passageiros compatível com o crescimento das cidades até o final deste século. Cidades como Curitiba, Belo Horizonte e São Paulo, apresentam um transporte urbano que já dá formato ao crescimento de novos e antigos bairros agora servidos por um transporte de massa de qualidade.


Publicado na Coluna Ponto de Vista
Correio de Uberlândia
Data: 13/03/2013

quinta-feira, 7 de março de 2013

Todos para a escola.

Pais e professores todos nós os tivemos. Os programas sociais do governo consomem cerca de metade do orçamento federal. O interessante disso tudo é que gastos com ministérios como o da Educação e da Saúde deveriam ser incluídos nas contas como gastos sociais, pois possibilitam aos filhos das classes menos favorecidas galgarem patamares salariais jamais imaginados por seus pais de classe média baixa. A mídia nacional em geral classifica como gastos sociais aqueles que possibilitam um imediato socorro às famílias de baixa renda, se esquecendo de que este é também um trabalho de longo prazo que interessa à nação.

Gastos com os ministérios da Educação e Saúde são sempre incluídos como despesas e não como investimentos sociais de longo prazo. Esse é um grande erro, pois população mais saudável e mais bem educada fornece, em longo prazo, cidadãos mais sadios para o trabalho e esclarecidos politicamente. Mas será que os nossos dirigentes querem mesmo isso? As manobras e o marketing que se fazem e não se pratica com a educação e a saúde em nosso país é algo de dar inveja ao mais maquiavélico dos seres.

Professores e médicos da educação e saúde públicas trabalham cada vez mais e em contrapartida veem seus salários dilapidados ano a ano por reajustes que não acompanham uma inflação corrosiva. A falta de entusiasmo pela profissão adicionado ao descaso com o bem público faz com que tais práticas desvalorizem em muito tais profissões. Uma medida política interessante seria valorizar esses profissionais concedendo-lhes a renúncia fiscal e aumentando seus salários pela isenção do imposto de renda. O relator é o deputado Eduardo Cunha do PMDB-RJ, que em seu parecer diz: “Com relação ao mérito, a proposta é legítima, não sendo necessário reparos. Ante o exposto, voto pela adequação financeira e orçamentária do PL nº 2.607, de 2011, no mérito pela aprovação do PL nº 2.607, de 2011”. Este parecer foi apresentado em 3 de Abril de 2012 à Comissão de Finanças e Tributação da Câmara Federal e até o momento de lá ainda não saiu.

Que tal se os sindicatos procurassem acompanhar tal PL e fazer dele mais um meio de valorizar a profissão de professor pela busca de meios alternativos de aumento salarial? Qualquer busca é válida, até mesmo uma sinalização do governo federal de que está disposto a cortar na carne da tributação para valorizar tais profissões. Um governo que já fez isso para IPI de automóveis pode muito bem fazê-lo para professores.

Por que o pleito é justo? Este pleito é justo porque professores precisam de recursos materiais mínimos para acompanhar a evolução do mundo e passá-la aos seus estudantes, precisam ter acesso à informação como nenhum outro profissional, precisam deles para se manter atualizados, esta demanda por recursos financeiros resulta na manutenção de um professor sempre atualizado e bem preparado. É preciso incluir a educação como gasto social em nosso orçamento, despesas essas que se reverterão em médio e longo prazo em receita maior devido a rendas maiores com níveis de instrução médios mais elevados.

Se todo pai considerar a educação de seus filhos como despesa e não um investimento para o futuro, o país sucumbirá ao senso prático do monetarismo imediatista. É preciso que o governo sempre sinalize que a educação e cultura são caminhos irreversíveis para o sucesso de médio e longo prazo.

Publicado no Jornal Correio de Uberlândia
Coluna Ponto de Vista
Data: 05/03/2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Renuntiatio a papa.


O Papa Bento XVI renunciou. O mundo está realmente mudado, pois esta é uma notícia que nenhum católico vivo jamais viu na mídia. A última renúncia foi a do Papa Gregório XII em 1415, portanto quase 600 anos se passaram. O mundo católico não sabia mais o que era isso. Baseado nos depoimentos de várias figuras proeminentes é possível traçar um perfil do homem que teve coragem de renunciar, estas opiniões mostram os pontos fracos e fortes do Cardeal Ratzinger e de seu papado.

Bento XVI foi o ducentésimo sexagésimo quinto papa, o Cardeal Joseph Alois Ratzinger, alemão nascido na pequena vila de Marktl Am Inn na Baviera, ao ser eleito em 2005 com a morte de João Paulo II, tinha sido o líder da controversa Congregação para a Doutrina da Fé. Hoje é acusado por membros da própria igreja católica de ser muito controverso e de ter dois pesos e duas medidas, era muito brando com os reacionários seguidores de Lefebvre, membro do movimento conservador católico que contesta algumas das mudanças do Concílio Vaticano II, enquanto que os partidários da Teoria da Libertação, doutrina católica de esquerda que defende a intervenção social dos católicos, eram tratados a golpes de bastão.

Um grupo irlandês de defesa de crianças abusadas afirma que ele teve oportunidade de enfrentar décadas de abuso na Igreja Católica, prometeu muito, mas nada fez. O pedido de sanções contra as ordens religiosas envolvidas nestes atos e os dirigentes religiosos que permitiram que ocorressem, outra vez nada aconteceu. Este grupo afirma que a Igreja Católica deve reconhecer o que se passou, e que deixaram o demo entrar na igreja onde morou por cinquenta anos.

Outros líderes elogiaram o Papa em seu trabalho para integrar todas as religiões. O que se conclui é que Joseph Ratzinger era um estudioso da religião que via em todas as outras religiões, à semelhança da sua, o bem comum voltado para o homem. O grão rabino de Israel afirmou que durante este papado, melhoraram as relações entre a Igreja e o rabinato. Diz ainda que ele merece todo o crédito pelos avanços no diálogo inter-religioso entre o Judaísmo, o Cristianismo e o Islã.

A renúncia de um papa é um fato que não acontece todos os dias, os membros da igreja católica foram pegos de surpresa pelo homem que já demonstrava alguns sinais de cansaço. Os católicos se acostumaram a ver o Sumo Pontífice como um rei que não renuncia e só deixa o posto com a morte, foi desta forma que os papas que estiveram no cargo por mais de quinhentos anos enfrentaram o posto, até morrer.

O Bispo de Roma, agora após a renúncia viverá no Vaticano e terá o titulo de Bispo Emérito de Roma. Mas que influencia passará ele a ter sobre o novo Papa? Será ele visto como uma eminência parda dentro dos muros da Santa Sé? Ele estará em uma posição hierárquica de quem já ocupou o cargo e coloca-se agora na figura de um conselheiro que passou por todas as experiências dentro da Igreja Católica, inclusive ao dirigi-la por quase oito anos.

O atual papa foi muito corajoso, e se a razão para sair é sua saúde debilitada, que um homem mais jovem e com mais saúde ocupe o posto de líder de todos os católicos. Mas muitos católicos acham que existem outras razões, se estas razões existem, é bom que os fiéis de todo o mundo comecem a cair na real de que os tempos de sumos pontífices como Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II já passou e a modernidade chegou. A pergunta é: - Será que o papado se transformou em um cargo como outro qualquer?

Publicado no Jornal Correio de Uberlândia
Coluna Ponto de Vista
Data: 14/02/3013




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Santa Maria....


É madrugada de sábado para domingo, enquanto todos descansam o fim de semana dos justos, mais uma tragédia anunciada entrava para a história dos grandes desastres de nosso país. Na boate Kiss em Santa Maria no Rio Grade do Sul, se reuniam em uma festa de jovens universitários, mais de 900 pessoas, num local em que foi declarado que só caberiam pouco mais de 400 pessoas.

Um dos membros da banda Gurizada Fandangueira, que animava a balada, resolveu adicionar um pouco de adrenalina àquele local escuro, apertado e isolado acusticamente com materiais altamente inflamáveis, que produzem letais gases tóxicos ao se queimarem. A brilhante ideia de um dos membros da banda fandangueira foi acender sinalizadores e fazer deles elemento de acrobacia e pirotecnia para animar a festa.

Fagulhas dos sinalizadores atingiram os elementos de decoração e isolação acústica, produzindo fogo que se espalhou rapidamente pelo local. Somem-se à tragédia, extintores que não funcionam e pessoas sendo impedidas de deixar o local por seguranças que formam uma barreira de brutamontes exigindo o pagamento das “comandas” de quem saía às pressas. Muitos impedidos de sair tentaram se esconder nos banheiros.

Estes foram os elementos do desastre que matou mais de duas centenas de jovens, e mandou outra centena em estado crítico, para o hospital, a grande maioria deles universitários. O Brasil ainda chora e todos nós choramos, porque poderiam ser os nossos filhos. Uma sequencia imperdoável de erros provocou esse desastre de monstruosas proporções. Como diria um especialista em aeronáutica, “um avião não cai devido a uma única falha”.

Todos nós falhamos por não exigir condições mínimas de segurança quando pagamos por um serviço. A certeza que circula por todo o Brasil é que esta não é a única casa de espetáculos em situação precária em nosso país. É preciso que as autoridades mudem a legislação, criem normas modernas, e as fiscalizem, para viabilizar a segurança em todos os ambientes em que se reúnam um grande número de pessoas.

É inconcebível que em pleno século XXI ainda se utilizem de métodos medievais de cobrança de dívidas em casas de espetáculos. Empresários da noite que se preocupam com segurança viabilizam o pagamento adiantado dentro das casas de espetáculo. Não se recomenda que pessoas fiquem trancadas dentro destes ambientes apertados, abafados e escuros por possuírem uma dívida que só pode ser paga “a posteriori”.

O desastre que aconteceu em Santa Maria, no R. G. do Sul, é de enormes proporções, pois equivale a um acidente maior do que a colisão de dois aviões “Boeing 737”, onde não sobreviveu praticamente ninguém. É preciso que haja fiscalização nestes ambientes quanto à segurança, quanto ao cumprimento de normas ambientais, e a facilidade da evacuação de pessoas em casos de acidentes. E se precisarem ser abafados estes ruídos que o sejam com materiais que não propaguem chamas e nem liberem gases tóxicos, para não se transformarem com a propagação de fogo em verdadeiras câmaras de gás.

O choro de todo o país, inclusive de nossa presidenta, é pela nossa omissão, diante do que está errado, ter negado um futuro talvez brilhante, a jovens que morreram empilhados em desespero, relembrando as câmaras de gás dos campos de concentração nazistas na segunda guerra mundial. Somos todos coniventes com a falta de segurança em que vivemos. Nenhuma família merece isso, é hora de dar um basta, e que Santa Maria tenha piedade de nós.

Publicado na Coluna Ponto de Vista
Jornal Correio de Uberlândia em 31/01/2013