domingo, 8 de setembro de 2013

A cidade e o movimento das pessoas.


Por que as pessoas se movimentam nas cidades?  Isto se dá pelas mais diversas razões, mas sem sombra de dúvida, e sem nenhuma pesquisa, é fácil concluir que elas se locomovem para cumprir suas obrigações diárias, quer seja para trabalhar, estudar, atender um chamado de amigos ou parentes e até pela simples necessidade de se socializar. Os pesquisadores especialistas em transportes de nossa cidade já sinalizam que não é possível ignorar o fato que em dez anos teremos mais de um veiculo por habitante rodando em nossas ruas. O espaço será insuficiente para todos e encontrar espaço para estacionar será difícil e muito caro.

Em certos países mais desenvolvidos que o nosso, para se comprar um automóvel o cidadão deve comprovar que o veiculo não ficará na rua e que possui espaço em casa para guardá-lo. Na cidade de São Paulo, já se prioriza o transporte público em detrimento do transporte individual com automóvel, com isso a cada dia, os motoristas destes veículos encontram mais dificuldades em se deslocar e o tempo de deslocamento fica cada vez maior. Tudo isso com a priorização do transporte de pessoas em grande escala via sistemas BRT, metrô e veículos leves sobre trilhos.

A cidade de Uberlândia não pode mais esperar ser atropelada por uma realidade que salta aos olhos quando se observam os números de crescimento de veículos com as ruas permanecendo as mesmas. As vias para circulação destes veículos não vão aumentar na mesma proporção, e a cidade e seus cidadãos são atropelados pelo caos da deficiência no sistema de transporte urbano. Para ver o que isto significa, não é preciso ir muito longe, basta ir visitar as cidades com mais de um milhão de pessoas que não se preocuparam em priorizar o transporte coletivo.

Um exemplo disso é a cidade de Campinas, onde a administração municipal não deu a mínima atenção a esta realidade que salta das estatísticas para o nosso dia a dia. O transporte público hoje é de baixa qualidade e o povo se vira como pode com a administração municipal de costas para o problema de locomoção do cidadão. Para mantermos Uberlândia a cidade moderna, de povo arrojado e empreendedor é preciso que a administração pública municipal seja o agente catalizador do planejamento do transporte público de nossa cidade para a próxima década.

Que se convoque os especialistas em transporte urbano, engenheiros, técnicos para pensar e projetar o transporte urbano da próxima década, utilizando a mais moderna tecnologia proporcionada pela tração elétrica, um sistema que poderia ser a coluna vertebral e permanente de um transporte público integrado com as cidades vizinhas. Não se pode esquecer que Araguari e Uberaba já estão ligadas com nossa cidade pelos trilhos da ALL (América Latina Logística). Um transporte sobre trilhos facilitaria o deslocamento na cidade e a integração com os sistemas já existentes com as cidades vizinhas.

Sabemos que nossa cidade tem muitas demandas de maior urgência e que talvez o transporte urbano não seja uma demanda urgente hoje. Mas é preciso estudar o problema antes que o mesmo seja de urgência para se evitar o caos e o excesso de demanda por transporte público que já afligem as grandes cidades em nosso país. É preciso que comecemos os projetos hoje para não sermos pegos de surpresa e planejarmos hoje como será o deslocamento das pessoas com a Uberlândia de mais de um milhão de habitantes e excesso de carros nas ruas de amanhã.


Pulicado em 12/09/20913 

Coluna Ponto de Vista
Jornal Correio de Uberlândia

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Energia: O alto custo da redução das tarifas.


Num cenário baseado em sua totalidade por um modelo hidrotérmico de energia, o governo do Brasil insiste no autismo de achar que temos um sistema predominantemente hídrico e que água não custa dinheiro. O sistema é hidrotérmico porque as usinas hidráulicas sozinhas não conseguem suprir o atual pico de demanda de energia de 80 GW. Soma-se a isso o fato que as usinas térmicas são usadas de forma intermitente para cobrir as possíveis ausências das máquinas hidráulicas. Uma forma pouco aconselhável de utilizar usinas térmicas, e que só contribui para a redução de sua vida útil.

A boa técnica recomenda que usinas térmicas sejam usadas como base de geração, ou seja, elas foram feitas para gerar energia ininterruptamente e não para serem usadas de forma intermitente. O problema é que estas são mais caras, tanto ligadas quanto desligadas do sistema, pois sua manutenção é onerosa e precisam estar sempre prontas para entrar em operação. Já que precisam estar sempre prontas para entrar em operação, que fiquem permanentemente ligadas ao sistema fornecendo a energia da base.

O problema é que decisões políticas reduziram a fórceps a tarifa de energia elétrica, o faturamento das empresas de energia elétrica caiu drasticamente, e as tarifas vão fazer ir para o vermelho a diferença entre receita e despesa. Sem lucro não há como investir em um país que praticamente precisará dobrar sua capacidade de produzir energia em dez anos, as demandas estimadas para o país, mantendo o mesmo ritmo de crescimento, em 2010, 2015 e 2020 são respectivamente de 88 GW, 118 GW e 154 GW. Seremos capazes de suprir esta energia com contenção do lucro nas empresas de energia via contenção artificial das tarifas? Qual será o custo das medidas políticas atuais sobre o custo futuro da tarifa de energia elétrica?

Para quem sobrará o abacaxi de trazer realidade às tarifas de energia elétrica? Para tarifas mais baratas é preciso utilizar energia mais barata. Todos nós já sabemos de passado recente o que acontece quando se utiliza a energia hidráulica mais barata à exaustão e São Pedro teima em não mandar chuva para recuperar reservatórios. É uma irresponsabilidade a forma como se utiliza energia hidrotérmica em nosso país. Estas decisões pouco responsáveis adotadas hoje causarão impacto futuro quando a conta das decisões políticas virá a ser cobrada.

A justificativa dos políticos é que a energia térmica a gás e óleo pesado é poluente e cara, isso é uma meia verdade, pois modernos sistemas de filtros tornam o sistema bastante limpo, o preço do combustível é caro, mas quanto nós iremos pagar pela energia no futuro com os projetos hidráulicos possíveis sendo reduzidos a olhos vistos por motivos ambientais? Não existindo mais reservas hidráulicas firmes disponíveis teremos que partir de qualquer forma para as usinas térmicas, a última reserva de energia firme disponível. Uma vez que a energia alternativa eólica e solar é intermitente e funciona com base forte na estatística da presença ou não do vento e do sol.

A alternativa talvez seja as novas fontes de energia com forte incentivo na produção da energia a partir de biomassa e biocombustíveis, um setor em que o país é fortíssimo e merece atenção especial em vista da grande quantidade de biomassa disponível a partir da indústria do açúcar e álcool e do milho. Espera-se que sejam adotadas medidas de estimulo real às energias renováveis e autoprodução de energia, ou caminharemos para o colapso.

Publicado na Coluna Ponto de Vista

Jornal Correio de Uberlândia
Data: 21/08/2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Precisa-se do homem institucional.


Nestes nossos dias vivemos um exacerbado culto ao personalismo, uma época em que o culto pessoal é muito mais importante que a tradição das instituições. Em realidade vos digo que é exatamente o contrário, as instituições são muito mais importantes que os homens em sua função de servir. Os homens passam, as instituições ficam. Estamos desesperadamente à procura de homens que sejam institucionais e que tenham consciência de que estão aqui a serviço do seu semelhante.

Precisamos de homens que sejam institucionais que tenham certeza que o seu sucesso seja a serviço da comunidade em que vive; homens que não cultuem o personalismo e não visem somente o seu bem estar e o de seus familiares, mas o bem estar do outro desconhecido que vive na mesma comunidade. Que o problema da comunidade e da instituição que dirige seja realmente um problema a ser resolvido, e não varrido para debaixo do tapete se não for conveniente para si próprio e para os seus.

Todos nós indistintamente dependemos de instituições, quer seja ela uma instituição federal, estadual ou municipal. Dependemos da escola onde estudamos, dos serviços públicos, dos órgãos classistas dos trabalhadores e dos organismos governamentais que devem obedecer a um cipoal de regras e leis que nem sempre são cumpridas. Nestas instituições o culto à personalidade é muitas vezes tão exacerbado que o ocupante da direção se julga dono do que é público e pratica atos à revelia do que é melhor para todos.

Em geral os personalistas tem a presunção de achar que o que fazem é o melhor para toda a comunidade, cultuando um personalismo que nos remete aos piores regimes ditatoriais. Estamos em busca de homens institucionais, que tenham consciência que dirigir um organismo é escutar e fazer, sem muita conversa e mais delongas, pois o tempo urge. Converso sempre com um velho amigo que já ocupou cargos de direção em órgãos federais. Um dia ele me disse: ­_ Muitos homens imaginam que o sucesso dentro de uma comunidade depende de impedir que os outros também tenham sucesso.

Mas a verdade maior é construir algo em que o sucesso possa ser dividido por toda a comunidade, além do compartilhamento de toda a responsabilidade. Pois o sucesso do grupo também será o sucesso de seu dirigente. O bem estar do dirigente será o bem estar da comunidade, não é correto pensar que só se dá valor a algo se somente uma pessoa ou família está bem, é preciso que ações comunitárias sejam direcionadas para que a maioria usufrua de seus benefícios.

É certo que as pessoas são muito importantes quando fazem parte de comunidades e que as instituições estão aqui para servi-las. Mas uma pessoa não pode dirigir uma instituição somente pensando em si e nos seus. Os recursos hoje são muito limitados e não canalização ou a sonegação de recursos para um determinado fim fazem com esta atividade fim se deteriore e acabe cobrando um preço alto daquele dirigente. Precisamos, portanto de gente que pense que as instituições estão acima do enriquecimento pessoal e familiar a custa de tantos membros da comunidade.

Que saibamos buscar na escolha de nossos representantes de todos os níveis, aquele homem ou aquela mulher que se preocupe mais com o bem comum do que com o bem próprio ou de seus familiares. Outro dia um amigo me disse que só escolheria representante para qualquer cargo se não vislumbrasse neste o culto ao personalismo que tantos malefícios têm causado às instituições que congregam nossa coletividade. Que venham então os homens e as mulheres institucionais.

Publicado no Jornal Correio de Uberlândia
Coluna Ponto de Vista
Data: 04/08/2013

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Agenda Positiva


Esta semana ouvimos que nosso governo irá criar uma “agenda positiva” para atender aos protestantes que invadem as ruas de nossas cidades e paralisam o país. Bastaram os estádios de futebol começar a ficar prontos para as Copas, e o brasileiro tomou consciência do que é o padrão FIFA de qualidade. Agora ele quer este padrão de qualidade para o transporte público, escolas públicas, hospitais, enfim para todos os serviços públicos pelos quais pagamos e não temos.

O que é “agenda positiva”? Esta resposta vai depender de como nossos políticos interpretam a semântica. Este termo quando visto sob a ótica política pode ter o objetivo de divulgar somente os acontecimentos positivos, ou as bondades praticadas por nossos governantes; varrendo para debaixo do tapete as barbaridades que ocorrem no gerenciamento dos gastos públicos desde o governo federal até a esfera municipal, já bem próximo de todos nós. Isto é tudo que o povo não quer.

Esperamos que “agenda positiva” seja um rol de medidas, ou pacotes de bondade, como costuma divulgar a mídia, para melhorar a educação, a saúde e a segurança pública. Para se ter uma ideia de quanto custa educação, saúde e segurança pública de qualidade, basta pesquisar o quanto gastam os países desenvolvidos com este tripé de serviços. Mas antes de tudo é preciso demonstrar inteligência nos gastos e lembrar que a “agenda positiva” não significa equipamento de qualidade, é preciso ter recursos humanos de qualidade bem remunerada e instruída.

Atualmente não se atrai recursos humanos de qualidade sem boa remuneração e sem equipamento para trabalhar. Deixar que nossas escolas, presídios e hospitais desçam ao nível de sucata, para depois tentar recuperá-los gastando-se mundos e fundos, é uma maldade sem precedentes para com o cordial e amistoso povo brasileiro. A população sai às ruas para reclamar seus direitos, não para pichar, fazer baderna ou depredar. Quem faz baderna e destrói as cidades são os arruaceiros e baderneiros sem perspectivas, entretanto é preciso ter um bom  horizonte à frente, para que nossos jovens tenham esperança e não abracem a baderna e a arruaça.

Para nossos jovens trabalhar com educação, com o sistema correcional ou hospitalar é um mero bico para se buscar uma profissão definitiva e mais bem remunerada. Nossos jovens transformaram-se em fazedores de concurso em busca de um emprego bem remunerado e não de uma profissão que os satisfaça e pela qual trabalharão com prazer. O que foi feito da vocação para determinada profissão? Isso acabou? Onde na escola existe um orientador para guiar o estudante para aquela profissão pela qual tem vocação natural?

Falta orientação no lar e na escola. Porque infelizmente não fomos preparados para aferir as habilidades naturais de nossos filhos e estudantes. A “agenda positiva” está dentro de cada um de nós, ao incutirmos em nossos filhos que o sucesso profissional é uma consequência natural do prazer e amor que cada um tem pela sua profissão. Como disse João Ubaldo Ribeiro em seu artigo “Ninguém sabe em que vai dar” sobre os protestos que sacodem o país.

As respostas para os questionamentos exibidos durante os protestos estão todas dentro de nós. Porque continuamos elegendo políticos corruptos que roubam o país? Porque alguns meses após as eleições já não nos lembramos em quem votamos? A culpa está dentro de nós porque aceitamos partidos políticos que vivem defendendo o óbvio, mas que nunca fazem nada de concreto em benefício do cidadão que paga imposto, e muito.

Publicado na Coluna Ponto de Vista
Jornal Correio de Uberlândia
Data: 17/07/2013

domingo, 23 de junho de 2013

E o VLT?


O governo federal libera bilhões de reais em verbas para a viabilização de projetos de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) para cidades brasileiras que tenham seus estudos sobre o assunto em fase de conclusão. Esta noticia é muito boa, pois surge num momento em que o modelo de transporte público nas grandes cidades brasileiras começa a dar sinais de esgotamento. O transporte público em São Paulo nunca foi tão mal avaliado há décadas. Protestos violentos sobre o alto preço das passagens e a péssima qualidade dos serviços de transporte se instalam e produzem centenas de vítimas nas grandes cidades.

Some-se ao fato que realmente os transportes públicos estão muito abaixo da crítica o fato que a polícia em nosso país é totalmente despreparada para coibir manifestações violentas. Aqui atiram primeiro e perguntam depois. Transporte público se faz com planejamento e com décadas de antecedência. Nossa cidade deveria ter grupos de trabalho pensando como será feito o transporte urbano quando a população dobrar de tamanho. Que passos serão dados para se chegar a um sistema de qualidade e viável financeiramente?

Um amigo disse que em Uberlândia, uma funcionária de um Shopping que sai do trabalho e pega ônibus tarde da noite em final de expediente e mora a 6,2 quilômetros do trabalho, demora cerca de uma hora e quarenta minutos para chegar a casa. Ora uma pessoa caminhando normalmente caminha um quilometro em dez minutos, a velocidade de cem metros por minuto. Se fosse caminhando para casa esta pessoa levaria sessenta e dois minutos para voltar para casa. De ônibus ela viaja a uma velocidade de sessenta e dois metros por minuto, muito menor do que uma pessoa normal caminhando.

Se viajando de ônibus o veiculo viaja a uma velocidade menor do que uma pessoa caminhando, isso indica que algo vai mal em nosso sistema de transporte público que precisa ser urgentemente reestudado e melhorado. De última hora não se faz nada veja o projeto VLT de Brasília que por açodamento e suspeitas de problemas na licitação foi retirado do portfólio de obras listadas para ficares prontas para a copa de 2014. O GDF desistiu, as obras já estão paralisadas, e vai inclui-la nas obras listadas no PAC – Plano de Aceleração do Crescimento.

Mais uma vez o transporte público é vítima de manobras pouco recomendáveis para assaltar o bolso do contribuinte. Não é sem razão que acontecem nas principais cidades do país sinais de cansaço com tanto pouco caso com nossos trabalhadores. Se gasta muito dinheiro com obras para eventos internacionais enquanto hospitais continuam superlotados, mal aparelhados e com médicos se recusando a trabalhar com equipamentos tão obsoletos que beiram o ridículo, e sistemas de ônibus tão antiquados que merecem ser totalmente revistos. A policia mal aparelhada para enfrentar ladrões, assassinos e malfeitores de todo tipo se mostra excelentemente aparelhada para enfrentar as já esperadas manifestações em face dos bilhões gastos para sediar eventos futebolísticos e depois uma olimpíada. O caso típico do dinheiro pago pro você na forma de impostos sendo usado contra você em forma de balas de borracha, spray de pimenta e bombas de efeito moral.

Os protestos se espalham e o mote para convocação dos participantes na Internet faz um alerta aos políticos e diz a eles que o gigante acordou. Agora que o gigante acordou e exige melhor transporte público, onde está aquele projeto de VLT para a Uberlândia do futuro?